De dezembro a dezembro

1991. As folhas das árvores já haviam caído há muito tempo quando o inverno chegou naquele fim de ano, lentamente congelando a vegetação distante até chegar mais pra perto e se alojar no centro da cidade como um tapete branco estendido sobre as ruas e telhados, criando aquele cenário perfeito para o natal próximo. Justine, a senhora do casaco florido, sempre gostou do inverno, tanto que era sua época preferida. A dormência do gelo congelava todos aqueles velhos sentimentos guardados, para que nem o passar das várias fases e estações o desgastassem, fazendo com que estes permanecessem ali, sempre calados. Então, nunca fazia diferença um pouquinho de gelo a mais no peito. Com o tempo ela aprendeu que ser fria estava lhe poupando de muitos futuros arrependimentos e não dava a mais ninguém a oportunidade de se aproveitar de sua carência e depois ir embora sem mais nem menos. Hoje, com dez graus abaixo de zero sendo anunciado num programa na TV, Justine saiu pra ver a neve e tirar o excesso da mesma do portão e viu que sua caixa de correio estava cheia. Haviam três cartas; uma carta do governo de “feliz natal”, outra do cartão de crédito já vencida e uma outra de água - sempre a mais cara - e nenhuma, nenhuma carta de quem tanto esperava, como sempre. Justine sorriu pra esperança boba e desejou está morta, já que mesmo depois de tantos anos, ainda não tinha perdido esse costume ridículo. Lá no fundo, na parte mais escura e protegida, ainda sobrevivia um pedaço daquele sentimento seco e sem vida, congelado por todos estes invernos sem respostas. Sentimento este, que insistia em querer florescer toda vez em que ela se aproximava daquela velha e enferrujada caixa de correio, na ilusão triste de que a carta de quem tanto esperava, chegaria. Mas ela sabia, e bem sabia, que essa tal carta nunca seria enviada e portanto, jamais chegaria. Hoje, num fim de tarde qualquer em meados de 1991, estava fazendo o 41º natal que nada chegava do mais desejado remetente. Por isso recolheu as cartas. Cobriu o rosto com o capuz e apertou cachecol no pescoço. Entrou em casa, pegou a caneca de café, sentou-se na mesa e voltou a escrever as velhas cartas, que desde então já não tinha mais destinatário. Ela escrevia pra esvaziar a dor e a saudade que transbordava em seu peito.
Sim. Eu esperei. Hoje. No meu aniversário. No dia dos namorados. Num dia simples e normal. Inesperado. Mas eu esperei porque você me prometeu que não me esqueceria e eu acreditei feito boba nessa sua promessa. E a verdade é que só bastou seis meses pra você parar por completo de me responder não é rapaz? A vontade que eu tenho é de ignorar tudo aquilo que existiu, exatamente do jeito que você ignorou. Mas acontece que eu sou esse tipo de ser humano deplorável que ainda não aprendeu a esquecer. Eu te tenho como um carma em minha vida e carrego isso pra todo lugar que eu vou. Hoje é natal, então achei que deveria aproveitar a data e te dizer que estou bem, estou viva, inteira, até moro no mesmo lugar. E que eu te desejo todos aqueles discursos que todo mundo faz nessa época do ano. Se bem me lembro, da última vez que você perguntou como eu estava, eu disse que estava feliz e com saudades. Desde aquele dia, querido, eu só sinto saudades. É trágico, eu sei. E eu que pensava que a distância não mudaria nada entre nós, ainda que pra mim só custasse o preço da saudade e a sua falta. Mas você, você me esqueceu por completo e nunca me amou. É o que parece. Não? Não parece mesmo, é fato. Quanto egoismo seu, quanta falta de respeito, mau caráter até. Me deixar morrer assim, afogada neste mar de expectativas e ilusões não é justo, eu merecia um fim, não um abandono. Toda vez que passo por nossos lugares conhecidos, eu tenho a necessidade de saber que rumo tu seguiu nesta vida. Eu sei que já não tenho o direito de saber de você, por isso não te peço nada. Espero mesmo é que isso tudo acabe logo. E caso você, dentro de toda essa impossibilidade, esteja lendo isso, saiba que foi amor Tom, nada dura tanto tempo e vai com a gente pro túmulo. Espero está morta no próximo inverno, desejo isso deste muito tempo. Caso contrário, é o mesmo endereço. Rua das saudades, Nº 13, Jardim Da Paz.
Att, Justine, em Dezembro de 1991.

9 Comentários

  1. poxa.. muito obrigada
    "Com o tempo a gente entende que entre ficar e ir, é melhor ir embora. Tudo o que você conquistou sempre será seu. Então, nunca se perderam de ti."
    isso me fez pensar muito, benditas palavras, precisei disso, precisava saber disso e vc me disse

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  2. Rick" a cada história sua eu me vejo ... em cada linha e tento segui-las, tento...
    Mas a vida nem sempre me permite!...

    Muitas saudades de vc! bjs!

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  3. Rick,uma história triste mas muito bonita e real!Gostei demais!Vc é excelente escritor!bjs,

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  4. Adorei seu texto. Você passa muito sentimento. Escreve muito bem. Vou passar sempre por aqui!
    bjss

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  5. O amor é e sempre será uma coisa individual. Embora em alguns casos os dois possam vir a compartilhar de um mesmo sentimento, ele vai continuar sendo singular. E até quando termina, ele não deixa de ser. Sempre terá um que vai sentir mais a perda e que vai demorar mais pra superar.
    Essa ideia das cartas me remeteu vagamente ao filme Dear John, adorei!
    Beijos.

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  6. Arrependimentos... acredito que é daí que tiramos conclusões definitivas do que queremos...


    Sabe, na sua bio "dramático" está entre, então considero como elogio (:

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  7. Oi, amigo Rick!
    Seu conto,como os demais, está muito bem escrito. A escolha do amor platônica torna a história mais saborosa.
    O amor verdadeiro resiste a cronologia e a distância.
    Parabéns pela inspiração!

    Abraços!

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  8. AAAH adorei as fotos, dos ultimos posts , são maravilhosas !

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